sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Sobre memórias e bisavó

Não sei se é essa Lua em Libra ou se é só esse tempo frio. Mas esses dias tenho sentido saudade. E saudade é uma coisa difícil de definir que se sente. Ela é difusa, tem dor e tem muita alegria. Tem carinho por onde passou. Por isso vira saudade.
E quando a saudade é de ouvir a voz e olhar nos olhos da bisavó, então ela cala fundo e dá aquela apertadinha no peito.
Bivó, Quita, já que não posso mais falar com vc há alguns anos, venho falar aqui pra ver se acalma isso que tá batendo disparado no peito.
Tenho sentido sua falta. Tenho pensado em vc em cada detalhe da casa nova que arrumo. Em cada planta que rego e cuido, em cada pergunta sobre a vida da Maria.
Tenho lembrado dos recortes sobre teatro da Ilustrada que vc deixava separado pra mim em cima da cama quando eu chegava da faculdade, e das nossas noites de sopas em dias frios falando das suas amizades de escritores do passado e de como a gente deve sempre aproveitar a vida e demorar muito pra se casar.
Saudade de ver vc andando com os sapatos largos doados pela minha avó Cecília e que você adorava usar porque “ela tinha bom gosto”.
Saudade dos nossos licores e chocolates escondidos no armário de madeira da sala de tv depois do jantar e dos seus comentários sobre a boca feia do Bóris Casoy.
Saudade de deitar no seu sofá depois do almoço e dormir sem querer no meio de algum assunto sobre as marcas de balas nos armários da Revolução de 32.
Saudade dos brinquedos de caixas de fósforos e feltro que você fazia com as suas delicadas mãos e que pra mim eram muito mais incríveis que as Barbies que eu tinha.
Saudade de falar todas as manhãs no café sobre os nossos sonhos da noite anterior e com quem a gente tinha se encontrado por lá. E você sempre falava sobre seus irmãos e como sentia falta deles. Saiba que hoje eu faço igual com a Maria só pra lembrar de vc.
Saudade de ver você sentada lendo na sua poltrona ou na sala tomando sol pela janela e conversando com as plantas. E me contando que você faz ginástica na banheira todos os dias com as pernas pra continuar a andar mesmo já com 100 anos.
Saudade do cheiro da sua casa e de te ajudar a chegar na mesa de chá do corredor pra comer bolachinha do lado da foto do Papa que o Tio Eduardo te deu.
Saudade de te olhar. Pequenina. E do seu sorriso de cumplicidade. E da sua cara de sapeca querendo aprontar alguma com alguém.
Dos livros de moda da década de 40. Das estórias sobre as aulas de piano e francês e sobre as peraltagens que meu pai aprontava quando também morou com você.
Sobre o casarão da Jandaia. Sobre seus filhos, que hoje é minha avó. Sobre o bonde que subia a Brigadeiro e a paquera pela janela. Sobre os poemas de Paulo Bonfim, o leite que chegava na porta de casa e a história de São Paulo.
Sobre como ser simples e feliz com pouco e levar a vida com riso, curiosidade e criatividade.
Sobre familia. E gerações. Sobre você.
Minha canceriana. Minha inspiração.
Você faz falta. Muita falta.

domingo, 4 de março de 2018

Massa de desejos

Sobre sonhos e realidades.
Sobre o tempo e a velocidade.
Sobre saber fazer e imaginar.
Sobre sentir e esperar.
Sobre odiar e querer apagar.
Sobre amar e deixar rolar.
Tudo parecia massa de pão para assar
sem ter o timer para programar.

Quanto vai durar? Vai assar ou queimar?
Deixa.
Uma hora o cheiro vem
e vai apontar.

E nessa hora, não haverá talheres, nem toalhas, nem copos, nem guardanapos.
Só a vontade de comer. Pura. Inteira. Gulosa.

sábado, 3 de março de 2018

Pontuações.

Ela começou a entender que a vida é feita de ponto e vírgula.
;
E as frases nunca mais tiveram fim...

E que como os travessões eram raros nos dias de hoje era preciso criar aspas.


Caixa de pandoras-palavras.

Podia ir ao teatro, ao cinema.
Ou café com amigo, ou coisa assim,
Mas era tanta, mas tanta palavra que tinha dentro dela
que estava com medo de, ao entrar em contato com o mundo,
se afogar em seus próprios pensamentos.
Era sentimento demais esmagado no peito. Era informação demais para digerir.
Era preciso colocar pra fora, abrir a caixa de pandora. Peneirar. 
Ela estava sufocada de palavras e tinha medo de morrer disso. 
Entupida de letras empilhadas garganta abaixo...
Era preciso pegar as palavras e reordena-las, com algum sentido, de alguma forma.
Cheias, rasas, curtas. Circulares. Todas elas. Mas alguma. Pelo menos uma.
Era preciso criar largos espaços. Amplos. Entre parágrafos.
Para, entre eles,
a palavra Esperança gravar. 

sábado, 7 de outubro de 2017

Sem censura

O meu amor é sem censura.
Ele pode ser raso ou profundo,
De noite ou de dia,
Com roupa ou sem.
Ele pode ser negro ou branco,
Homem ou mulher,
O que ele tem é aquele jeito de que quer.
Ele pode ser alucinado ou bem demorado.
Pode ser de passagem ou de vida inteira,
Secreto ou aberto.
Ele é o jeito que é.
Livre.
Aberto.
Meu jeito certo.
De amar.