quarta-feira, 17 de maio de 2017

Umbilicadas

E quando você virou na cama e eu te abracei por trás eu fingi te dar apoio, mas as lágrimas é que me apoiaram. Era medo de já ser aquilo que se é e de pensar que um dia você é que estará em meu lugar. Engolindo as dores e os vazios para ver se eles saem da frente quando a gente está de frente. Porque ser mãe é também engolir silêncios para enganar dores desnecessárias. Para espantá-las e não deixar que contaminem o humidificador que fica no seu quarto. A verdade é que um dia, que será logo, ainda beberemos vinho discutindo o amor. Ou cerveja, como for. E eu espero que você ame e se apaixone mil vezes. E que tenha histórias para dividir. E que sofra. Pois sofrer faz também viver. Mas sei que a dor virá pra mim também, pois estamos umbilicadas uma na outra. E que vou sofrer como sofro agora e que talvez sofra sua avó. Eu sei que quando meu olho enche você também transborda. Tem grito seu que fala por mim. E dói. E vai doer. A vida é assim, minha filha, esse turbilhão de atropelamentos. E tem batida que demora para sarar. E tem passagens que a gente nem vê atravessar. Mas a gente vai vivendo. E no meio desse silêncio entre eu e você existe um zilhão de borboletas que carregam bolsinhas de amor. Porque é esse amor que faz o fazer por. Por você. Por mim. Por nós.

sábado, 6 de maio de 2017

Ofélia das Águas Escuras

E quando ela pisou naquela terra e olhou para as folhas das árvores-viajantes ela sentiu todo seu corpo estremecer. Tinha a nítida sensação de já ter estado lá mesmo sendo sua primeira vez. Retornava a um local de dor e desejava sentar e chorar. Estava frio e o barulho de um violão tocando numa voz maculina fez ela pensar que ela poderia se apaixonar de novo sim. Por um músico, um ator, um estrangeiro ou  um alguém que soubesse viajar com ela. Com ela. Ela poderia. Mas estava com medo de subir as palmeiras ou de abrir a janela e descobrir quem tocava aquela melodia.
Sentou na beira d'água e deixou que os peixes passassem. Nas profundezas da água ela poderia talvez voltar a ser Narizinho e encontrar o Peixe Escamado. Mas as águas estavam escuras demais para se ver os caminhos do Reino. O silêncio do debaixo d'água a fascinava. E ela sentiu um estranho impulso de buscar o seu reflexo. Chegou mais perto da beira, olhou-se  e, de um susto, atirou-se. Estava apavorada demais para se ver. Silenciou-se.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O ego e as fantasias virtuais.

Acordou com café quente para tentar organizar os pensamentos, mas o café só queimou a língua, que teimava em se mexer ansiosa pela palavra dita. Abriu a janela e pensou que poderia ter acordado mais cedo para ver os pássaros cantarem, mas que a vida andava tão dura que ela queria mais é que eles se fossem. Escovou os dentes com tanta força e a gengiva sangrava. Como sangrava também a vontade de acessar as redes sociais que ela havia prometido não mais socializar. Não queria mais saber por onde as pessoas andavam e nem quem elas queriam mostrar. Não queria mais gastar tempo da sua vida pensando em quantos e quais views ela viria a ter no próximo dia. Ela não pensava. Mas pensava. Era algo que invadia sua mente e causava certa ansiedade no meio do trânsito quando ela já havia prometido não mais acessar o pequeno quadrado sedutor. Ela não brincava no trânsito. Pois os carros não brincavam com ela. Eram cruéis. Assassinos. E ela já havia escapado de um ao ponto de saber que a vida vale mais a pena que curtir fotos de pessoas que nem lembravam mais quem ela era ou o que ela sentia. Ou o que sentiam por elas. Esse era o ponto que a incomodava. E muito. Ao clique de um like ou de um não visto, parecia que a realidade toda na sua cabeça se modificava. Ela tinha talento para inventar histórias não vividas e muitas vezes se perdia nelas. Esse era o exercício. Parar com as vidas criadas e voltar para a realidade cruel. Sim, estava cruel. E talvez por isso ela andava se perdendo no mundo virtual. Por ali as horas fugiam do seu controle porque cansada já estava de ter controle de tudo. Lia tudo que aparecia pela frente, de receita de bolo orgânico aos maus tratos das crianças em países que nem sabia que existia. Curtia tudo quanto estava de bom humor e os ignorava quando estava carente. Era uma forma de guardar amor para si mesma. Dar like para si mesma. Era assim a forma que tinha encontrado de viver no mundo falsificado dos instantes. O silêncio e a ausência virtual era um jeito de fazer carinho no seu próprio ego. Por mais contraditório que isso possa ser. Mas o fato é que ela andava com o amor bem em baixa e os cliques pulavam das suas mãos quase incontrolavelmente. Ela, ali, podia se expôr, inventar, criar e até modificar a realidade. Era boa nisso. Ela mudava sua realidade a fim de controlar a sua própria fantasia. A sua própria fuga tinha atalhos tortos que a levavam para cada vez mais longe de si. Era difícil viver assim. Não queria mais. Sentia falta da risada solta dita sem pretensão de ser engraçada e das conversas que surgiam da troca profunda de olhares. Sentia falta das palavras ouvidas que nunca chegou a ouvir. Sentia falta. Falta de uma realidade mais suave. Mais reta. Mais honesta. Mas ao sair de casa percebeu que isso era quase a mesma ilusão de acreditar nos mundos virtuais. E que não tinha saída. Então, entrou no carro, colocou a chave no contato e deixou o celular ligado no banco do passageiro para quem sabe um dia deixar que tudo isso passe. Ou até que a vida passe.


terça-feira, 2 de maio de 2017

Fica, vai.

Deitou a cabeça no ombro de alguém.
Do homem que dividia o assento no trem.
E pensou que este alguém
Poderia recitar pra ela um poema de Vinícius
Ou cantarolar um de seus vinis empoeirados
E dizer que mesmo que ela fosse embora
Na próxima estação
Ela moraria eternamente no seu pensamento.

E que talvez, mais de 10 anos depois, eles pudessem se encontrar, se for.
E ele recitaria no mesmo trem, o mesmo verso, a mesma prosa, a mesma música.
Mas diria: não vá embora não.
Fica, vai.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Conto de rua molhada.

Naquela tarde de sol de inverno, enquanto caminhava apressada pela rua ainda molhada da chuva que acabara de cair, ela pensava o quanto sentia falta de saber notícias suas. Não o via há tempos e a última memória guardada daquele olhar tinha sido numa virada de esquina. O vazio do tempo tinha tornado o buraco no meio um pouco maior do que ele realmente era. Ou ele era quando ela lembrava que ele existia. Pois quando a vida passava, ele também passava. Mas, em dias como aquele, em que caminhava sozinha pelo mundo barulhento, o buraco dava as caras e inflava de tamanho. Tornava-se um túnel negro capaz de levá-la para dentro numa força de vulcão. Ela se via diante da possibilidade de pular dentro dele. De suicidar-se pra dentro. Chegava bem na beira, entregava-se e derramava-se em lágrimas. Em rio. Mas aí, de um momento ao outro, sem regras, recuava. Sempre depois de um transeunte que pedia licença ou mesmo de um tropeço na calçada esburacada. Ela voltava assim. Num susto. Numa quebra de raciocínio colocava os fones de ouvido no último volume e lembrava que o trem estava para chegar e ela não podia se atrasar. Lembrava dos ovos que precisava comprar, do livro que tinha que terminar e do amigo que perdera a mãe que precisava visitar. O mundo de fora a salvava. Ou a levava? E, mais uma vez, lá ia ela pra fora do mundo negro em busca de atender o mundo fora. Como uma máquina de fazer pensamentos.

Mas, em silêncio, dentro do peito, carregava uma vontade de chorar. No colo dele. Um dia.