sábado, 7 de outubro de 2017

Sem censura

O meu amor é sem censura.
Ele pode ser raso ou profundo,
De noite ou de dia,
Com roupa ou sem.
Ele pode ser negro ou branco,
Homem ou mulher,
O que ele tem é aquele jeito de que quer.
Ele pode ser alucinado ou bem demorado.
Pode ser de passagem ou de vida inteira,
Secreto ou aberto.
Ele é o jeito que é.
Livre.
Aberto.
Meu jeito certo.
De amar.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Amor de sapo.

Ela se apaixonou por um sapo.
E ficou esperando que ele virasse príncipe.
O tempo passou, a pele enrugou.
E o sapo murchou.
Aí ela olhou de novo,
depois de um belo tempo,
pegou-o no colo,
e esperou.
E lá, entre uma pele seca e uma língua cumprida,
ela descobriu que amava o sapo exatamente como ele era.

Seco, molhado, desajeitado, feio, bonito,
coaxando ou em silêncio.

Mas com olhos, ah.... os olhos, mais lindos do mundo.
E isso, ela tinha certeza, não mudaria nunca.
Pois falava daquilo que os olhos não vêem,
mas que o coração sente. E muito.

domingo, 24 de setembro de 2017

Sobre mostrar o que se sente.

Ela acreditava no amor e sabia muito sobre as conexões sutis e a importância delas.
Mas muitas vezes fingia que não só pra não se machucar.
O tempo passava.
E a tal proteção da dor virava casca dura.
E a tal da casca dura quando bate, quebra.
E dói ainda mais.
Então, pensando nisso, ela andava falando pelas esquinas mais que antigamente.
Sobre ela, seus amores e intuições.
Quem sabe assim, falando, agindo, mostrando, não haveria mais casca
nem dores. E seria só amores.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O ir e vir do além.

Acendeu uma vela numa noite qualquer, ou quase qualquer, em posição de lótus e começou a meditar.
Ouvia a música e pensava que em 24 horas completaria 38 anos de vida.
Inspirou, expirou. Diversas vezes. Visualizou seu corpo ficando verde. Cada vez mais verde. Era assim que o livro mandava.
E, em poucos instantes, bem na sua frente, surgiu um grande portal de ferro torcido, entrelaçado, detalhado, com dois portões pesados numa mistura de rococó com inferno de Dante.
Em meio aos ferros, trepadeiras surgiam, subiam e desciam frente ao seus olhos, tornando tudo escuro e muito denso.
Aproximou-se. Abriu. Primeiro um lado, depois o outro. Fumaça saiu de dentro. Como um passe de mágica ou uma experiência animada. Ou um gelo seco falso de um palco. Foi-se e dali surgiu: um grande arco-íris em forma de ponte. Uma ponte infinita com inúmeros sobes e desces. Fazia curvas, era leve e por lá divertiu-se. Um grande escorregador de diversas cores. Aventurou-se. Livre. Translúcido.
Com o tempo, a velocidade aumentava. Não havia medo, só deslumbramento. Encantada ficou.
Ao lado, no meio, em cima e  embaixo, surgiam danças, giros, movimentos seus, passados e futuros. Papéis, textos, máquinas de escrever, gente dando textos, falas, cenários, luzes, palco. Tinta, muita tinta, cores. Pincéis. Artes em um lento furacão, mas de uma beleza indescritível. Tudo ia, bailava sobre esse céu de arco-íris, quando de repente, ao longe, ela avistou uma pequena caixa. Demorou para definir que caixa era e como era. Ao fim de várias mutações ela se fixou em madeira, pequena e não muito escura. Conseguiria abrir? O que teria dentro? Esperou. Tentava liberar a mente do auto controle para que o inconsciente pudesse agir. Brigou, relutou, parou. Só abriria se relaxasse quanto ao conteúdo. Esperou mais um pouco e pum! apareceu uma chave. Aproximou-se da caixa e abriu.
De dentro daquela pequena caixinha começaram a surgir notas musicais grandes, pretas, em forma e volume. Saíam com som, flutuantes e passavam aos braços dela. Ganhando em quantidade e, do fundo da sua garganta verde, começaram a estimular um canto lindíssimo. Era a sua voz. Era o seu próprio canto que andava guardado há muito tempo no Além. Agora, estava livre e podia se expressar, cantar, vivenciar. As notas a conduziram por esse céu, pelo espaço e, voando, ela foi levada de volta para a entrada do portal de ferro. O portal se fechou e ela se manteve fora, agora preenchida com sua música interior.
Silenciou. Estava já deslumbrada com tanta descoberta e amor. Seu coração estava cheio e sua mente ainda tentava assimilar tamanha informação e emoção. Ainda enxugava as lágrima que escorreram junto com a descoberta do canto. Respirou. Expirou. Silenciou novamente.
Era preciso continuar, ela pensava. Era preciso agora adentrar seu portal interior. Olhar pra dentro de si. E, por mais confusa que estivesse, conduziu sua meditação para seu corpo, seu peito, seu coração. Assim como a música havia despertado uma sensação de abertura da sua espiritualidade, o olhar para dentro acendeu uma chama. Um fogo, uma fogueira, começou a queimar entre seus seios, no meio do peito e no plexo solar. Vermelha, laranja quente. Sentiu-se aquecida. Ela deveria abrir para a chama. Para a criatividade, para sua própria intuição. Agora estava tudo mais claro. Havia chama em seu peito e ela tinha visto e vivenciado com seu próprio corpo. Era isso que precisava liberar.
Assim,  cheia de música e fogo, foi expirando todo seu verde do corpo e materializando seu corpo, suas pernas, seus cabelos e o local onde estava sentada. Aos poucos, abriu os olhos, bem devagar. De lá, de sua pequena almofada no chão, avistou seu gato em cima da cama. Ele olhou para ela. E sorriu.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Receita de penteado.

Os cabelos femininos....
Nada de coque, à moda da vó. Os coques seguram vontades.
Nada de tranças, à la Cora. Essas trazem lembranças.
Nada de rabo, à cavalo. São eles que guardam os medos.
Nada de grampos, como nos bailes. Grampos agarram desejos.
Os cabelos devem seguir a favor dos ventos. Dos movimentos.
Para que o espírito possa correr livre entre os fios. Soltos.
Embaraçados, esvoaçantes, bagunçados, ventilados.
Livres, a balançar conforme o riso.
Selvagens.

domingo, 13 de agosto de 2017

Olhar vazio.

Era pelo brilho no olhar que ela se apaixonava.
Toda vez que via ou cruzava alguém na rua com aquele olhar ela já começava a inventar histórias, paixões e até mesmo términos. Construía toda a vida com ele em duas estações de metrô. Era assim que trabalhava seu coração machucado demais.
Às vezes, os olhares eram recíprocos e, então, o caso até esquentava. Outras vezes era puro amor platônico. E, em outras, geralmente nas madrugadas frias, ela criava até mesmo os olhares que não ocupavam os assentos vazios. Era de uma solidão do tamanho de um trilho que corria só, sem trens, sem partidas, sem chegadas. Só trilhos vazios. Ela criava o seu próprio mundo subterrâneo. Tão farta estava do mundo lá de fora. Lá de cima. Dos outros.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O beijo.

- Me dá um beijo?
- Não.
- Por que não?
- Não.
- Só um beijo, vai?
- Já disse que não..
- Mas por que não?
- Porque  o beijo é o começo de uma ilusão. E hoje tô mais pra realidade mesmo.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A escalada e suas despedidas.

Ela decidiu subir o vulcão. Era uma forma de colocar a prova a força do coração.
Era preciso saber até quando e onde a batida forte aguentaria. Ela sabia dos seus limites, mas precisava testá-los. Foi. Passo a pequenos passos. Inspiração-expiração. Parou, respirou, chorou.
Chegou ao ápice. Quis voar ainda mais alto. Não tinha asas, mas conseguiu vislumbrar a perspectiva do voo do condor que passava rasante. Ela tinha chegado lá. Vencido.
Tirou a mochila que carregava e arremessou lá de cima. Tirou uns 43 kg das costas. Se refez em nova pele, meditou, comeu uma maçã e decidiu retornar. Desapegou-se.
Desceu, vagarosamente. Tentando manter na retina da memória cada reflexo da luz da neve. Era bonito demais para se deixar esquecer. Como alguns amores. Como algumas memórias, como algumas vitórias. Que se tornam ainda mais belas quando permanecem na fantasia do que já se foi.
Como a neve que cai branca e vira rio em poucas horas sob o sol forte que brilha alto.

domingo, 16 de julho de 2017

A fuga

Foi numa manhã de domingo que me dei conta de que você havia fugido de casa. Abri a janela, chamei pelo nome e a única coisa que ouvi foi o latido do cão do vizinho. O pânico me dominou da cabeça aos pés e sai perambulando pela rua com o grito de dor engasgado no peito. Corri ruas, deixei cartazes, conversei com os vizinhos e orei, como nunca tinha feito antes. Nunca imaginei que pensar a vida sem o seu olhar pudesse me fazer entender o tamanho do amor que sinto por você. E foi nesta escapada que tudo se deu. Nessas horas de abandono.
Ali, sozinha, me deparei com o sentimento mais profundo do que é ser deixada. Não por isso ou aquilo, justificativas mentais que nós seres humanos criamos para inventar a vida, mas simplesmente porque era a sua hora de viver uma despedida, de ir embora. Instintivamente, partida. E me vi, dividida, rachada ao meio, entre me abandonar na dor e tentar encontrar meu eixo, aquele que talvez pudesse me sustentar sem você. A gente já está conectado há tempos, mas eu sempre duvidei disso. Duvidei que você pudesse adivinhar meus pensamentos, meus choros e mau humores. Duvidei da sua bruxaria felina. E pra quê? Naquele momento, era só isso que restava acreditar.
Tomei um chá, comi uma banana e decidi que era preciso seguir, mesmo quando tudo parece parado. Vou cozinhar, pensei. Talvez um dia ele volte. Quando ele achar que for a hora. Quando ele quiser me reencontrar.
Abri a geladeira, peguei quiabos. Uma faca na gaveta de talheres e qual não foi a minha surpresa quando abri o gavetão de panelas: você, com esse seu olhar azul, encolhido, mas sereno. Me mirou e me disse, assim, como se já tivesse ido e voltado para algum lugar distante: miau!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Umbilicadas

E quando você virou na cama e eu te abracei por trás eu fingi te dar apoio, mas as lágrimas é que me apoiaram. Era medo de já ser aquilo que se é e de pensar que um dia você é que estará em meu lugar. Engolindo as dores e os vazios para ver se eles saem da frente quando a gente está de frente. Porque ser mãe é também engolir silêncios para enganar dores desnecessárias. Para espantá-las e não deixar que contaminem o umidificador que fica no seu quarto. A verdade é que um dia, que será logo, ainda beberemos vinho discutindo o amor. Ou cerveja, como for. E eu espero que você ame e se apaixone mil vezes. E que tenha histórias para dividir. E que sofra. Pois sofrer faz também viver. Mas sei que a dor virá pra mim também, pois estamos umbilicadas uma na outra. E que vou sofrer como sofro agora e que talvez sofra sua avó. Eu sei que quando meu olho enche você também transborda. Tem grito seu que fala por mim. E dói. E vai doer. A vida é assim, minha filha, esse turbilhão de atropelamentos. E tem batida que demora para sarar. E tem passagens que a gente nem vê atravessar. Mas a gente vai vivendo. E no meio desse silêncio entre eu e você existe um zilhão de borboletas que carregam bolsinhas de amor. Porque é esse amor que faz o fazer por. Por você. Por mim. Por nós.

sábado, 6 de maio de 2017

Ofélia das Águas Escuras

E quando ela pisou naquela terra e olhou para as folhas das árvores-viajantes ela sentiu todo seu corpo estremecer. Tinha a nítida sensação de já ter estado lá mesmo sendo sua primeira vez. Retornava a um local de dor e desejava sentar e chorar. Estava frio e o barulho de um violão tocando numa voz maculina fez ela pensar que ela poderia se apaixonar de novo sim. Por um músico, um ator, um estrangeiro ou  um alguém que soubesse viajar com ela. Com ela. Ela poderia. Mas estava com medo de subir as palmeiras ou de abrir a janela e descobrir quem tocava aquela melodia.
Sentou na beira d'água e deixou que os peixes passassem. Nas profundezas da água ela poderia talvez voltar a ser Narizinho e encontrar o Peixe Escamado. Mas as águas estavam escuras demais para se ver os caminhos do Reino. O silêncio do debaixo d'água a fascinava. E ela sentiu um estranho impulso de buscar o seu reflexo. Chegou mais perto da beira, olhou-se  e, de um susto, atirou-se. Estava apavorada demais para se ver. Silenciou-se.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O ego e as fantasias virtuais.

Acordou com café quente para tentar organizar os pensamentos, mas o café só queimou a língua, que teimava em se mexer ansiosa pela palavra dita. Abriu a janela e pensou que poderia ter acordado mais cedo para ver os pássaros cantarem, mas que a vida andava tão dura que ela queria mais é que eles se fossem. Escovou os dentes com tanta força e a gengiva sangrava. Como sangrava também a vontade de acessar as redes sociais que ela havia prometido não mais socializar. Não queria mais saber por onde as pessoas andavam e nem quem elas queriam mostrar. Não queria mais gastar tempo da sua vida pensando em quantos e quais views ela viria a ter no próximo dia. Ela não pensava. Mas pensava. Era algo que invadia sua mente e causava certa ansiedade no meio do trânsito quando ela já havia prometido não mais acessar o pequeno quadrado sedutor. Ela não brincava no trânsito. Pois os carros não brincavam com ela. Eram cruéis. Assassinos. E ela já havia escapado de um ao ponto de saber que a vida vale mais a pena que curtir fotos de pessoas que nem lembravam mais quem ela era ou o que ela sentia. Ou o que sentiam por elas. Esse era o ponto que a incomodava. E muito. Ao clique de um like ou de um não visto, parecia que a realidade toda na sua cabeça se modificava. Ela tinha talento para inventar histórias não vividas e muitas vezes se perdia nelas. Esse era o exercício. Parar com as vidas criadas e voltar para a realidade cruel. Sim, estava cruel. E talvez por isso ela andava se perdendo no mundo virtual. Por ali as horas fugiam do seu controle porque cansada já estava de ter controle de tudo. Lia tudo que aparecia pela frente, de receita de bolo orgânico aos maus tratos das crianças em países que nem sabia que existia. Curtia tudo quanto estava de bom humor e os ignorava quando estava carente. Era uma forma de guardar amor para si mesma. Dar like para si mesma. Era assim a forma que tinha encontrado de viver no mundo falsificado dos instantes. O silêncio e a ausência virtual era um jeito de fazer carinho no seu próprio ego. Por mais contraditório que isso possa ser. Mas o fato é que ela andava com o amor bem em baixa e os cliques pulavam das suas mãos quase incontrolavelmente. Ela, ali, podia se expôr, inventar, criar e até modificar a realidade. Era boa nisso. Ela mudava sua realidade a fim de controlar a sua própria fantasia. A sua própria fuga tinha atalhos tortos que a levavam para cada vez mais longe de si. Era difícil viver assim. Não queria mais. Sentia falta da risada solta dita sem pretensão de ser engraçada e das conversas que surgiam da troca profunda de olhares. Sentia falta das palavras ouvidas que nunca chegou a ouvir. Sentia falta. Falta de uma realidade mais suave. Mais reta. Mais honesta. Mas ao sair de casa percebeu que isso era quase a mesma ilusão de acreditar nos mundos virtuais. E que não tinha saída. Então, entrou no carro, colocou a chave no contato e deixou o celular ligado no banco do passageiro para quem sabe um dia deixar que tudo isso passe. Ou até que a vida passe.


terça-feira, 2 de maio de 2017

Fica, vai.

Deitou a cabeça no ombro de alguém.
Do homem que dividia o assento no trem.
E pensou que este alguém
Poderia recitar pra ela um poema de Vinícius
Ou cantarolar um de seus vinis empoeirados
E dizer que mesmo que ela fosse embora
Na próxima estação
Ela moraria eternamente no seu pensamento.

E que talvez, mais de 10 anos depois, eles pudessem se encontrar, se for.
E ele recitaria no mesmo trem, o mesmo verso, a mesma prosa, a mesma música.
Mas diria: não vá embora não.
Fica, vai.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Conto de rua molhada.

Naquela tarde de sol de inverno, enquanto caminhava apressada pela rua ainda molhada da chuva que acabara de cair, ela pensava o quanto sentia falta de saber notícias suas. Não o via há tempos e a última memória guardada daquele olhar tinha sido numa virada de esquina. O vazio do tempo tinha tornado o buraco no meio um pouco maior do que ele realmente era. Ou ele era quando ela lembrava que ele existia. Pois quando a vida passava, ele também passava. Mas, em dias como aquele, em que caminhava sozinha pelo mundo barulhento, o buraco dava as caras e inflava de tamanho. Tornava-se um túnel negro capaz de levá-la para dentro numa força de vulcão. Ela se via diante da possibilidade de pular dentro dele. De suicidar-se pra dentro. Chegava bem na beira, entregava-se e derramava-se em lágrimas. Em rio. Mas aí, de um momento ao outro, sem regras, recuava. Sempre depois de um transeunte que pedia licença ou mesmo de um tropeço na calçada esburacada. Ela voltava assim. Num susto. Numa quebra de raciocínio colocava os fones de ouvido no último volume e lembrava que o trem estava para chegar e ela não podia se atrasar. Lembrava dos ovos que precisava comprar, do livro que tinha que terminar e do amigo que perdera a mãe que precisava visitar. O mundo de fora a salvava. Ou a levava? E, mais uma vez, lá ia ela pra fora do mundo negro em busca de atender o mundo fora. Como uma máquina de fazer pensamentos.

Mas, em silêncio, dentro do peito, carregava uma vontade de chorar. No colo dele. Um dia.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Portas fechadas e janelas abertas.

Ainda tentando entender porque o ser humano precisa dar de cara com uma porta fechada para olhar para o lado e ver que sempre houveram inúmeras janelas abertas no mesmo salão para ele poder voar.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

O tempo do tempo.

Quanto tempo dura uma paixão?
...
Quanto tempo dura o amor?
...
Quanto tempo dura o rancor?
...
Quanto tempo dura o apego daquilo que já foi?
...
Quanto tempo a gente leva para entender o tempo?
...
Quanto tempo falta para a gente aceitar o tempo?
...
Quanto tempo falta para gente ter tempo?
...
Quanto é o tempo?
.

domingo, 23 de abril de 2017

Corrida com borboletas

Sou metida a ter saudade do que ainda nem vivi.
Daquilo que está por vir e que logo mais pode acabar.
Mania de fugir do agora e de tentar virar futuro o passado.
Em dias assim, quando o medo escancara a porta e o presente escorrega pela soleira,
eu corro com borboletas no estômago pra deixar que elas voem alto, pra longe.
E partam. Pra não voltar.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Chuva erótica

E ela saiu nua na chuva
Pra se molhar.
Pra dançar
aquela última música da tarde.
E as gotas escorriam
na pele
como líquidos
que cheiram a sais,
a chás,
a sexo.
Aos sexos.
Fazia amor consigo mesma.
Escorria.
Toda vez que chovia.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Vida Zapeada.

Ela ficava imóvel quando tudo fora estava agitado demais, intenso demais, exagerado demais.
Era um modo seu de assistir a vida.
Não entrava nela nos furacões. Assistia, lentamente, a espera da mudança de canal.
Zapeava, zapeava, zapeava.
Muito barulho e curtição pra pouco programa de coração.
Desligava assim seu dia.
A espera de um dia ir ao teatro.

terça-feira, 7 de março de 2017

As dores

Há dores que doem na carne.
Sangram, quebram, estilhaçam.
Morfinas, neosaldinas, profenides.
Gota a gota, algo leva.

Mas há dores, e que dores, que doem na alma.
Ah....essas, de amores, de despedidas e dissabores.
São invisíveis e impossíveis de operar.
Essas permanecem furando o peito, aberto.
Sem ataduras pra dar.
Essas só se dvão com os ventos
Quando eles mudam de norte.
Quando eles trazem nova sorte.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Ferida escondida

Tenho uma ferida profunda dentro do peito que teima em abrir.
Andava disfarçada com pele nova.
Às vezes se escondia em curativos.
Ou morava embaixo do tule pra esquecer.

Mas nesses dias de euforia, com a brisa do mar
e o cheiro de mijo das ruas,
ela me lembrou que ainda está lá.

E o meu peito estufou de raiva de sabão.
E não queria mais brincar de bolinhas.
Nem de silêncios e mal entendidos.

Eu queria lavar tudo no arrastão da quarta-feira de cinzas.
Pra que a ferida nunca mais volte a se instalar.
E eu consigo novamente amar.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A multidão e o mar

E aquela multidão de carência invadiu o mar com urros de excitação.
Era preciso ser feliz para preencher o vazio que a noite e o vento teimavam em trazer.
Eles jogavam luz e o rosto dela teimava em ver a escuridão.
Ela subia e descia, mas o que queria?
Uma conversa franca e um abraço apertado de amigo.
Era só um jeito de tentar trazer o mar pra dentro da avenida.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Listas.

É preciso fazer listas para que a saudade não teime em entrar pela fresta da ilusão.
É preciso fazer listas para não esquecer que a ilusão é aquilo que se cria em coração vazio.
É preciso fazer listas para que em breve possamos queimá-las.

Rede de pescaria.

E tinha algo nela torto que teimava em retornar.
Era uma ansiedade gigante de controlar o mundo e de pescar os sentimentos em rede para eles nadarem para um lado só.
E toda vez que a rede enchia, ela rasgava e estourava o cardume.
Saía lasca para todo lado, escama e anzol pontudo.
Ela chorava no fim da noite, quando a luz do sol já fazia rabiscos no mar.
Estava tudo derramado.
Estava tudo derramado.
Não tinha como consertar.
Por hora, só a espera de uma nova onda.
Ou um peixe perdido na encosta.
Por hora, era só a espera de um peixe perdido na encosta.
Perdido, sim, mas querendo pescar.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A casa na árvore.

Depois que o carnaval passar e a maré baixar,
quero construir uma casa na árvore, bem alta, com uma porta larga, uma janela bem grande e florida e uma varanda vasta que dê vista para um nascer de um novo sol.
De lá, vou comer jabuticaba todo dia, brincar de escalar galhos pela manhã e cantar sozinha quando bem entender. E dar risada, muita, com a minha filha e com quem mais eu desejar.
Não vai ser muita gente. Mas vai ser só gente de muita fé.
No amor, no ser humano e na capacidade de respeitar o caminho do outro.
Sem julgamentos. E com muita compaixão.
Vai ser uma casa na árvore. Daqueles sonhos de menina moleca.
Com vista para o nascer de um novo sol.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Balanços

Entre o amor que se sente e a obrigação de ensinar.
Entre sentir e ter que segurar.
Entre desejar e não poder tocar.
Entre querer pular e ter que remar.

Que a vida possa ser menos entre
E mais intensa em cada lado da canoa.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O sino que traz o tempo.

O gato subiu no telhado e roeu todas as minhas roupas.
Depois comeu meus fios, livros, calcinhas e escovas de dentes.
Com o tempo, a minha cama não era mais minha.
E as manhãs também não.
Com o tempo nem o tempo era mais meu.
Aí parei.
E amarrei um sino na coleira dele.
Para que toda vez que ele entrasse no meu quarto
eu ouvisse o aviso de longe.
E me prepasse para isso.
Para que eu eternizasse isso.
Esse instante.
O todo tempo do mundo
entre o saber que o tempo vai acabar
e o fim em si.

sábado, 21 de janeiro de 2017

O silêncio da noite.

O silêncio da noite é o aconchego da alma.
Deixa, deixa, deixa.
Ficar.
Quietinha.
Psiu.
Tá tudo bem aí.
Confia.

O fantástico meu mundo.

O fantástico mundo de cá.

Aqui, nem sempre tem sol
e quando há chuva
é como hoje lá fora: ininterrupta.

Aqui, se namora toda hora
e se transa a dois, a três, a toda hora.
Mas também tem romance e coração partido.
E vontade de só pegar na mão do amor esquecido.

Aqui subo no palco toda noite
mesmo vestindo pijama rasgado pelo gato.
E crio casos que me mandam serenatas, vasos de flores
e declarações de amores. Por correio.

Aqui nesse mundo se houve jazz nas madrugadas
ao som do piano velho que fica na sala.
Uma jam particular, só para mim.
E, de preferência, com um músico de barba mal feita.

Aqui neste mundo eu canto como Elis,
e, às vezes, também, vivo o medo dela.
Olho para o copo e fecho os olhos na beira da janela.
E penso que voar pode até ser bom.

Aqui também tem dia de Frida e lembrança de dores nunca esquecidas.
Dores físicas, emocionais e casos ocasionais.
E coloco flores na cabeça para ver se o peso fica leve
e fumo charuto para espantar a inveja.

No mundo de cá eu escrevo todas as noites
e publico livros e canções falando das dores.
E as pessoas sabem quais as dores.
E acolhem.

No fantástico mundo de cá
tem tudo do não dito,
um pouco do percebido
e nada do que é falado.

Porque é o meu mundo. De cá.



À venda.

Depois de muito tanto faz e tanto fez, finalmente, pôs tudo à venda.
A casa, os móveis, as verdades, os medos, as dúvidas
e tudo mais nela que juntava pó.
E com ela, só ficou o miojo
e o Logan com gelo para tilintar o pensamento.